Skip to main content

Che Guevara é venerado porque tem sangue verdadeiro para mostrar

Angelo Abu/Folhapress
Che Guevara morreu há 50 anos e ainda há quem lhe conceda o benefício da dúvida. Na semana passada, recebi um convite para um "debate" sobre Guevara e o seu legado. Pensei que era piada. Ainda perguntei: "Vocês querem saber se ele matou muito ou pouco?".
Ninguém riu. A ideia era mesmo "debater". Eu estaria entre os "críticos" (muito obrigado) e, do outro lado da mesa, estariam os apologistas. Recusei.
Aliás, quando o assunto são psicopatas, eu recuso sempre —uma questão de respeito pela minha própria sanidade. Nunca me passaria pela cabeça debater seriamente o Holocausto com um negacionista. Por que motivo o comunismo seria diferente? Escutar alguém a defender a União Soviética é tão grotesco como estar na presença de um neonazi a defender Hitler e o Terceiro Reich.
De igual forma, também nunca me passaria pela cabeça convencer terceiros sobre a monstruosidade do nazismo —ou a do comunismo. Como se ainda houvesse dúvidas.
Não há -e, no caso de Guevara, o próprio deixou amplos testemunhos a comprovar a sua excelência. O culto do ódio; a excitação do cheiro a sangue; a necessidade de um revolucionário ser uma "máquina de matar" -o Che não enganava.
E os fuzilamentos, que ele executou ou mandou executar, são ostentados pelo nosso Ernesto como se fossem medalhas na farda de um general. A criminalidade de Che Guevara não é questão de opinião. Isso seria um insulto ao próprio.
Mas há um ponto que me interessa sobre o Che: a sua sobrevivência como símbolo. Atenção: não falo de adolescentes retardados que desconhecem o verdadeiro Che e ostentam na camiseta o retrato que Alberto Korda lhe tirou. A adolescência é uma fase inimputável que, nos piores casos, pode durar uma vida inteira.
Não. Falo dos intelectuais que, conhecendo Che Guevara e o seu "curriculum vitae", o canonizam sem hesitar. O que leva pessoas inteligentes a aplaudir um criminoso?
O sociólogo Paul Hollander dá uma ajuda no seu "From Benito Mussolini to Hugo Chávez - Intellectuals and a Century of Political Hero Worship". O título, apesar de longo, é importante.
Em primeiro lugar, porque Hollander não discrimina entre "direita" ou "esquerda". O totalitarismo só tem um sentido —a sepultura.
Em segundo lugar, porque não é a natureza dos regimes que interessa ao sociólogo; é a devoção dos intelectuais pelos "heróis" revolucionários do século.
No caso de Che, existem explicações históricas —e psicológicas.
As históricas lidam com a Revolução Cubana de 1959, ou seja, três anos depois de Nikita Khrushchev ter denunciado os crimes do camarada Stálin.
A desilusão foi profunda —e, para a "nova esquerda", a União Soviética deixava de ser o farol da humanidade. Era apenas mais um estado opressor (como os Estados Unidos, claro) que atraiçoara a beleza do ideal marxista.
A partir da década de 1960, os "peregrinos políticos" (expressão de outro livro famoso de Hollander) passaram a ver o Terceiro Mundo —Cuba, China, Vietnã, Nicarágua— como o paladino virginal da libertação do homem. Fidel Castro e o seu ajudante Che Guevara ocuparam os papéis principais como "bons selvagens".
Mas existe um motivo suplementar para Che palpitar no peito dos intelectuais, escreve Hollander: o fato de ele não ser um intelectual "defeituoso".
Uma história ajuda a compreender o adjetivo: em 1960, Sartre visitou Cuba e comoveu-se com as confissões de Fidel. "Nunca suportei a injustiça", disse o Comandante. Sartre concluiu que Fidel entendeu como ninguém "a inanidade das palavras".
Tradução: não basta falar contra o imperialismo/capitalismo/colonialismo; é preciso agir. Che Guevara, que Sartre batizou como "o mais completo ser humano do nosso tempo", simboliza essa totalidade. Alguém que não se fica pelas palavras —e passa aos atos. Che Guevara é venerado porque tem sangue verdadeiro para mostrar.
É um erro afirmar que os "intelectuais revolucionários" que admiram Che Guevara continuam a prestar-lhe homenagem apesar da violência e do crime. Pelo contrário: a violência e o crime estão no centro dessa homenagem.
Che sobrevive porque foi capaz de ser o "anjo exterminador" que todos eles sonharam e não conseguiram.

Comments

Popular posts from this blog

Por que o Brasil não consegue se livrar de novo do mosquito Aedes aegypti? 82 Do UOL, em São Paulo 02/02/2016 06h00   Ouvir texto 0:00   Imprimir   Comunicar erro Moacyr Lopes Junior/Folhapress Guerra ao mosquito 'Aedes aegypti' tem se tornado cada vez mais difícil O mosquito  Aedes aegypti , transmissor do zika, foi eleito o "inimigo número um do Brasil", segundo o ministro da saúde Marcelo Castro. No entanto, após erradicar por duas vezes o mosquito, o país não consegue mais se livrar do vetor de ao menos mais três doenças: dengue, chikungunya e febre amarela. A razão do Brasil ter conseguido eliminar o mosquito com menos tecnologias não é simples. Sim, houve um relaxamento no combate, mas outros fatores pesam para o Aedes escapar das nossas mãos – neste caso, literalmente. A ameaça amarela O combate ao mosquito foi primeiramente realizado na década de 50 contra o então avanço da febre amarela no ...

The great organic myths

Why organic foods are an indulgence the world can't afford They're not healthier or better for the environment – and they're packed with pesticides. In an age of climate change and shortages, these foods are an indugence the world can't afford, argues environmental expert Rob Johnston Thursday, 1 May 2008   Myth one: Organic farming is good for the environment The study of Life Cycle Assessments (LCAs) for the UK, sponsored by the Department for Environment, Food and Rural Affairs, should concern anyone who buys organic. It shows that milk and dairy production is a major source of greenhouse gas emissions (GHGs). A litre of organic milk requires 80 per cent more land than conventional milk to produce, has 20 per cent greater global warming potential, releases 60 per cent more nutrients to water sources, and contributes 70 per cent more to acid rain. Also, organically reared cows burp twice as much methane as conventionally reared cattle...
BRASIL Análise: Como um filme pró-golpe (falso!) de 1964 viralizou nas redes sociais Pesquisador descreve os 3 passos da estratégia usada por influenciadores e sites sem credibilidade (veja a credibilidade dele logo abaixo da primeira foto no *) para fomentar a polarização virtual Por  Por Rafael Goldzweig*, especial para EXAME access_time 9 abr 2019, 16h36 - Publicado em 9 abr 2019, 16h03 Exército durante a Ditadura Militar de 1964 (Bettmann / Contributor/Getty Images) *Autor na Iniciação Cientifica da tese "O ingresso da Venezuela no Mercosul: análise dos aspectos políticos e econômicos", onde descreve "... A importância do tema justifica-se pela importância que o bloco adquiriria com a adesão desse novo país, tendo em vista a ampliação dos mercados consumidores e das reservas petrolíferas do bloco." Artigo de Rafael Goldzweig, coordenador de análise de redes sociais na Democracy Reporting International Na última semana, o f...